Feeds:
Posts
Comentários

“MOSCOW TMA”

MoscowTMA

Nick Walker

TRIDENT

De cada vez que tiro
uma pastilha elástica da boca,
bem mastigada, faço uma bolinha
com ela e penso na fenomenologia
do mundo. Há, tanto numa
como noutra, por mais
que masquemos, uma durabilidade
que nos ultrapassa. E tudo isto
só para não falar
da imagética de um cérebro.

Seria gajo
para foder a senhora
das notícias. A da
meteorologia também.
Aproveitaria, pois trabalham
na mesma estação, e foderia
a do programa da tarde. E
para não pensarem que sou
esquisito, ao seu companheiro
dar-lhe-ia com força,
até me rebentarem os colhões.
Tudo isto – certamente
compreenderão – porque
divertiram-se, enquanto viva,
a enganar a minha avó.

The Brooklyn Bridge In Bedroom

The Brooklyn Bridge In Bedroom, Abelardo Morell

A APNEIA E A MORAL

“O trabalho de um Mallarmé não é elitista. Tende a quebrar a ganga que nos envolve. A decifrar a linguagem, os seus sinais, os seus discursos e a tornar-nos assim menos surdos, menos cegos perante o que os poderes se esforçam por nos ocultar. Tende a dilatar o nosso espaço. A exercer, apurar, flexibilizar o pensamento, o único que permite a crítica e a lucidez, essas armas essenciais.”

Depois de ler este texto (a transcrição em cima é uma parte dele) cheguei, como sempre, a uma conclusão que tende principalmente a passar despercebida quando a cegueira religiosa pelas letras fala mais alto para que os burros baixem as orelhas – independentemente da classe social. Tudo se resume (não para desfazer mas para evidenciar o outro lado da medalha) a uma pergunta. Toda esta argumentação usada para descrever o poder das palavras (de Mallarmé) é suficiente para nos fazer acreditar que estas não são permeáveis a interpretações com finalidades duvidosas? Sinceramente não me parece. Se tivermos em conta que lucidez, flexibilização de pensamentos e crítica fazem parte do universo prático da política, e que essa é a pedra base despoletadora da configuração das sociedades, corremos o risco de perceber que nada, como se lê na transcrição, pode ser assim tão linear e singelo. A escrita, por muito que custe, é uma viatura demasiado perigosa; pode ser conduzida por qualquer leitor. Não compensa portanto, apesar de o livro em causa ser uma verdadeira preciosidade (aparentemente esgotada) seguir a via sacra da opinião absoluta. E não é preciso ir muito longe para perceber isso. Basta ler – e o homem em termos políticos era um tanto ou quanto duvidoso – O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa.

[Se alguém me souber dizer onde posso encontrar o livro em causa, de Vivianne Forrester, eu agradeço veemente.]

NÃO É PARA TI

Não estando satisfeito, pode experimentar o habitual e renovar-se.

Lao Tse

Contrario; não gosto do lema
poesia para todos. Nego e volto
a negar: a poesia
não é para todos. É sim
para alguns, para aqueles
que procuram ou anseiam
a derrota dos maiores
sonhadores; para mentes doentes
tão desfasadas do funcionamento
do mundo, que não sabem
tão pouco sonhar; para
o mero cidadão comum
que não aceita ter mais
do que todos os outros.

NO MEIO DE TANTA MERDA
- e o tempo trata disso – há sempre uma flor
que desponta, não fiques
portanto preocupado.

Depois de ler (será que leu?) o poema anterior, alguém decidiu deixar o seguinte comentário:

    “Olá tudo bem?!!
    Somos estudantes de jornalismo e estamos desenvolvendo um trabalho sobre os grupos urbanos. Nossa escolha foi desvendar o universos dos neofranciscanos. Confira, opine, suas conclusões são muito importantes para nós.
    Abraços,
    Grupo de estudantes de Jornalismo – Belo Horizonte
    Ah o nosso link é http://www.neofranciscanos.wordpress.com

Nem sabem – a sério! – como estou contente, é sempre bom, do nada, e sem perceber muito bem o porquê, contribuir para tão mui nobre causa. Deixo aqui, portanto, e desde já, a sugestão.

O MACACO COR-DE-ROSA

Sempre mas não
para, achei que a minha sobrinha,
de dois anos, percebe mais
e puerilmente da teoria da evolução
do que certos e já
determinados adultos.
Para ela,
como é próprio da idade, não há
macacos: há cacos
e cacos e cacos
e cacos, mais concretamente
um cor-de-rosa – vejam lá
no que viemos a dar. Deposito
todo o meu orgulho
nesta minha sobrinha.

A recente polémica de Saramago, independentemente das críticas vorazes – dele e dos consequentes reaccionários embrulhados em morais milenares -, não me surpreendeu. Confesso que inicialmente, antes de ler mil e quinhentas opiniões – quase todas elas seguindo os mesmos príncipios suspeitos -, chocou-me um pouco; mas nem por isso, mais tarde, me pareceu perversa\ inocente e muito menos despropositada. Muita gente achou que tais declarações foram, nada mais nada menos, do que uma bela e incrível acrobacia de marketing embrulhada numa pseudo cruzada fora de moda e antiquada. Sinceramente – há que pensar um bocadinho, mas só um bocadinho -, acho que um autor como ele, nobelizado, não precisa de publicidade, muito menos (quem já leu as crónicas dele percebe) as acusações se coadunam com a sua postura crítica e hirta, nada dada a correntes costumeiras de opinião perante a sociedade em que vivemos. Sabendo eu, de gingeira, que é mais fácil seguir pelo caminho da acusação (não fosse eu um acusador por natureza, pois dá-me gozo) fiquei com a sensação, mas posso estar enganado, de que todos os que discordaram da opinião dele, pondo de parte a igreja, são demasiado levianos para perceber assuntos bem mais sérios para lá da superficialidade do costume. Tudo, meus amigos – é tão fácil de perceber -, se resume à sua atitude filosófica por excelência, uma atitude que escasseia nestes tempos que correm (adoro esta expressão). A atitude sobrepondo-se à teoria. O ódio à igreja, como todos sabemos, não é de agora, faz parte dele desde que escreve ou desde que se lhe atravessou entretanto no caminho – sinceramente não sei quando se consumou o namoro, mas também não é importante. Para não me prolongar muito mais, pois já estou a começar a dizer besteiras, a minha opinião é a seguinte: as afirmações, independentemente do que se diga – vivemos numa sociedade livre – têm a ver com a época e circunstância histórica que atravessamos. Saramago, essencialmente, e para mim faz todo o sentido, teme que a igreja ganhe um novo fôlego, e o passado, não há que enganar, mostra-nos o que aconteceu quando a igreja, em épocas negras, se agarrou com unhas e dentes ao desespero das pessoas. Pelos vistos, na época do socialmente correcto, mesmo o contra-corrente, do feliz-por-estar-contente, a igreja ainda tem muita força, mesmo fora dos seus ciclos de crença.

Pode parecer estúpido, mas inicialmente, quando li este poema, pareceu-me que a mensagem que o homem quis transmitir, era, de alguma forma, análoga à minha interpretação. Depois de pesquisar sobre o dito, mudei de opinião: era comuna, e como tal, de bom coração. Mesmo assim, tenho as minhas dúvidas, ele há gajos para tudo. Sendo assim, imprimirei em ti, leitor, a ironia. Lê este poema com bastante ironia, a forma mais acutilante e poética que pode haver. Percebe entretanto que, embora não pareça, é o poema indicado para o assunto de que falo nesta posta.

    O ESPAÇO DO POETA*

    A escrivaninha negra com entalhes, os dois candelabros de prata,
    o cachimbo vermelho. Está sentado, quase invisível, na poltrona,
    com a janela sempre às suas costas. Por detrás dos óculos,
    enormes e cautos, observa o interlocutor
    à luz intensa, ele próprio oculto dentro de suas palavras,
    dentro da História, com personagens seus, distantes, invulneráveis,
    capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
    da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
    expressões, nos momentos em que os tolos efebos
    umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
    astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
    entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
    qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
    enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
    uma coroa de absolvição e santidade.
    “Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
    não esperemos então misericórdia de ninguém”.

    Yannis Ritsos

* Neste caso, o poeta, sou eu que o digo, tanto podes ser tu leitor, como o próprio Saramago. Se discordares podes ficar caladinho – acredita: o próprio Saramago não virá discordar desta minha opinião.

Mensagens Antigas »